História de Vida

Perfeição vinda das mãos

Peças únicas e sob medida feitas por uma profissão quase extinta


Tradição. Elegância, Requinte, Sofisticação. Essas são características do trabalho de um alfaiate. Embora essa seja uma profissão quase que em extinção, ainda existem alguns remanescentes que prezam pelas peças feitas à mão, é o caso de Ermelindo José Cappelari. Sempre vestido de maneira impecável, ao receber a equipe do Jornal Informativo Regional estava muito elegante, o que não poderia ser diferente, já que atua nesse ramo há 64 anos.

Ermelindo contou que sua grande inspiração para seguir na área de alfaiataria veio de um dos irmãos. “Venho de uma família de 11 irmãos e meus pais trabalhavam na roça, por isso não tinham muitas condições de nos proporcionar estudo. Aos seis anos já ajudava meu pai na lavoura e como a vida lá era bastante sofrida, num dia um dos meus irmãos decidiu trabalhar como alfaiate e eu achei uma profissão bastante interessante e fui aprender com ele”.

Em 1954, quando tinha 18 anos, Ermelindo saiu de casa para atuar como alfaiate. Em função da vida humilde, levou consigo apenas duas camisas de manga curta e duas calças de brim. “No ano de 1957, decidi morar em Soledade, pois já tinha experiência em alfaiataria. Em 1962, casei e me estabeleci em 1963, ano que formei minha alfaiataria. Comecei a loja com um sócio. Ficamos juntos por cinco anos. Ele precisou sair então comprei a parte dele. Em seguida, seu irmão veio trabalhar comigo e permaneceu por 20 anos”, revelou. 

Naquela época, a alfaiataria era vista como algo de requinte e sofisticação. “Além de ser uma profissão milionária, pois as roupas eram todas feitas pelos alfaiates, ter esse trabalho era algo de grande visibilidade, chegava até ser igualado ao médico, engenheiro, advogado e fazendeiro”, garantiu.

Um momento bastante difícil relatado pro Ermelindo aconteceu em 1964. Por conta da Revolução daquele ano, as pessoas estavam com a estabilidade financeira bem abalada, prejudicando um pouco os seus negócios. Mas isso não foi impedimento. Mesmo essa situação tendo durado em torno de um ano, o alfaiate deu a volta por cima e só fez crescer seu estabelecimento.

É como diz o ditado: após a tempestade vem a bonança. Foi exatamente o que aconteceu com Ermelindo. “Após um período conturbado, as coisas voltaram a dar certo, tanto que de 1965 a 1985, fizemos nossa independência econômica. Compramos alguns imóveis e fomos nos estabelecendo. De 1985 para cá, formei meus cinco filhos: advogado, médico, economista, chefe da Justiça Federal e Procurador do Estado”, contou.

Uma atitude inteligente que fez com que o estabelecimento de Ermelindo decolasse naquela época foi fazer um consórcio. “Num belo dia, descobri que uma fábrica de carros estava realizando consórcios, então fui até meu contador perguntar se existia a possibilidade de fazer consórcio de roupas e ele disse que sim. Aí não pensei duas vezes, fiz o consórcio e naquela época, vendi 200 peças. Foi então que as coisas melhoraram e em 1975, quando percebi, já tinha tomado conta do mercado regional. Isso me proporcionou comprar o terreno onde é a loja hoje e construir meu estabelecimento comercial”.

Com certa tristeza, o alfaiate disse que atualmente faz poucas peças devido às facilidades que se tem hoje em dia para comprar roupas. “Antigamente, para ir a uma alfaiataria, era preciso uns dois meses de antecedência para garantir. Hoje não é mais assim. Infelizmente, a alfaiataria está em extinção, pois ninguém mais tem interesse em aprender a profissão. Mesmo assim, nunca me arrependi em ter escolhido ser alfaiate, pois para mim, é uma das profissões mais lindas do mundo”, finalizou.