Entrevista

Dr. Lucas Duda Schimitz

A obesidade é uma doença multifatorial, fatores comportamentais, psicológicos, ambientais, genéticos, clínicos e muitos desconhecidos estão entre os principais mecanismos envolvidos na origem da obesidade.

Por Informativo Regional

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Quais as principais causas da obesidade?


A obesidade é uma doença multifatorial, na qual múltiplos fatores interagem, não sendo possível reconhecer apenas uma causa isolada. Fatores comportamentais, psicológicos, ambientais, genéticos, clínicos e muitos desconhecidos estão entre os principais mecanismos envolvidos na origem da obesidade. Se a obesidade fosse resultado de apenas um fator o seu tratamento sem cirurgia seria muito menos complexo e não teria tantas falhas com reganho de peso frequente.

Como saber se é de origem genética, hormonal ou por excesso de ingestão de alimentos?

Raras doenças genéticas podem contribuir para obesidade e depende de um diagnóstico sindrômico geralmente. As alterações hormonais estão envolvidas na maioria dos casos e, atualmente, surgiram muitos medicamentos que tentam reverter essas alterações, porém sem grande sucesso. Com relação ao consumo excessivo de alimentos, sabemos que grande parte dos obesos comem demais, entretanto a qualidade do alimento é mais importante que a quantidade: tomar um copo cheio de água é bem diferente que tomar o mesmo copo cheio de leite condensado.


Como identificar quando a obesidade é causada por distúrbios psicológicos?


Dependemos de uma avaliação psicológica da equipe multidisciplinar para essa constatação. Em alguns pacientes identificamos a compulsão alimentar como um dos principais fatores, porém como falei anteriormente, raramente os problemas psicológicos são causa exclusiva para a obesidade de alguém.

Podemos dizer que existe o melhor tratamento para a obesidade?

Múltiplas intervenções conseguem fazer o paciente perder peso, entretanto é muito comum o paciente reganhar peso após. Tratar obesidade é muito mais que fazer o paciente perder peso. O melhor tratamento é aquele que consegue fazer com que o paciente permaneça magro a longo prazo e ao mesmo tempo trate doenças associadas que surgiram em função da obesidade como hipertensão, diabetes, alterações de colesterol, entre outras.

Do ponto de vista científico, quando analisamos resultados dos diversos tipos de tratamentos, fica claro que a cirurgia é o melhor tratamento para obesidade. Entretanto, é bom salientar que o recurso cirúrgico nunca deve ser o primeiro tratamento a ser proposto para o paciente e existem indicações precisas nesse caso.


Como combater o excesso de peso?


Existem três níveis de terapias, inicialmente o tratamento clínico baseia-se em mudanças dietéticas e comportamentais com redução do número de calorias e estabelecimento de atividade física rotineira associada ou não ao uso de medicações. Esse tipo de tratamento deve ser acompanhado por profissionais, incluindo médico, nutricionista, educador físico e psicólogo.

Além disso, o tratamento endoscópico com colocação de balão intragástrico é uma modalidade que ganhou muito espaço hoje em dia, em função da disponibilidade e baixo risco associado. O que inviabiliza o balão é o fato de que nenhum plano de saúde paga o procedimento o que acarreta custos para o paciente. A cirurgia, além de ser o melhor tratamento para casos de obesidade grave, hoje é disponível em vários centros e contemplada em todas as operadoras de planos de saúde e pelo SUS, inclusive através de técnicas pouco invasivas como a videolaparoscopia e a robótica.


Quais os principais problemas físicos mais comuns ocasionados pela obesidade?


As sequelas ortopédicas são muito comuns, nossas articulações não foram projetadas para aguentar excesso de peso por muito tempo, sendo frequente observar pacientes jovens obesos com dificuldade de caminhar e executar tarefas cotidianas. Além disso, essas sequelas inviabilizam uma parte do tratamento clínico quando o paciente não consegue fazer atividade física, pois tem dores articulares ou acaba lesando uma articulação ao fazer exercícios na tentativa de perder peso.

Essas lesões algumas vezes são definitivas e mesmo naquele paciente que perdeu peso posteriormente, pode não haver recuperação de movimentos ou alívio da dor.


Qual doença a obesidade pode causar em um indivíduo?


Estatisticamente o paciente obeso morre 10 anos antes que indivíduos com peso normal. Isso ocorre devido à obesidade ser uma doença que causa outras doenças graves e que matam esse indivíduo muito antes que ele imagina. O problema é que quando um obeso morre, culpamos o infarto, o derrame, o câncer, a cirrose, a apnéia do sono e esquecemos que a causa disso foi a obesidade.

Existem cerca de cinquenta doenças associadas a excesso de peso, sendo o diabetes, as doenças cardíacas e o câncer as principais causas de morte do obeso. A obesidade é o segundo maior fator de risco evitável para o câncer, só perde para o tabagismo.


A procura por cirurgia para obesidade tem aumentado?


Sim, o aumento é constante, cada vez mais pacientes buscam a cirurgia como solução para a obesidade. Isso ocorre em função do crescente número de obesos, mas também em função das melhorias técnicas com diminuição dos riscos associados à cirurgia bariátrica.

O paciente que fez bariátrica pode voltar a engordar?

Isso pode ocorrer em aproximadamente 20% dos pacientes operados, porém com o tratamento não operatório o insucesso ocorre em 95% dos casos e esse fato coloca a cirurgia como tratamento mais eficaz. O paciente precisa entender que não existe milagre... A cirurgia é um excelente método, a melhor terapia para redução de peso, entretanto se ele não cumprir regras, vai haver falha.

É necessária a colaboração do operado, ele precisa mudar sua vida para um patamar mais saudável após a cirurgia, com alimentação adequada, atividade física regular, acompanhamento médico e laboratorial de forma vitalícia. As atitudes do paciente têm grande responsabilidade nos resultados cirúrgicos.


Quando deve ser indicada a cirurgia?


Em casos de obesidade grau 1 associada ao diabetes, obesidade grau 2 associada ao diabetes ou outras doenças ou em qualquer caso de obesidade mais grave sem necessidade de ter outras doenças. A gravidade da obesidade é estabelecida a partir do cálculo do Índice de Massa Corporal (IMC). Quanto maior o IMC mais grave é o paciente e maior a indicação cirúrgica.

Além disso, é importante ressaltar que o paciente deve ter tentado ao menos 2 anos de tratamento clínico anteriormente para ser operado.



Créditos: Divulgação