Artigo

O fanatismo da pureza!

Por Padre Ezequiel Dal Pozzo

Jesus compara o reino dos céus a um homem que semeia a boa semente no seu campo. Numa

noite, enquanto todos dormiam, veio o inimigo e semeou joio no meio do trigo. Ao crescer,

joio e trigo se misturavam e os empregados pediram ao patrão se deviam arrancar o joio.

Como joio e trigo são muito parecidos e suas raízes se entrecruzam, o patrão disse que

deixassem o joio crescer com o trigo até o fim da colheita.

Em nossa sociedade, na Igreja, na política, nas instituições, as pessoas são uma mistura de joio

e de trigo. Muitos se consideram trigo e apontam os outros como joio. Nem percebem que no

seu coração são joio e trigo ao mesmo tempo. O puritanismo só existe na cabeça de quem o

pensa.

Tudo indica que no início da Igreja havia o anseio de uma Igreja pura. Quem não

correspondesse ao ideal cristão deveria ser expulso, arrancado do meio, excluído da Igreja.

Seria isso que Jesus quis ensinar com a parábola? Certamente não. Jesus sabia o que era o ser

humano e sabia que a verdade nunca esta só de um lado e que as pessoas, todas as pessoas,

precisam se acolher mutuamente, num desejo comum de evolução. Ninguém chegou lá ainda.

Ninguém é só trigo.

O fanatismo da pureza em qualquer instituição cria guetos. Gente de cabeça fechada que tem

a pureza só na cabeça. São piedosos, mas também são pecadores, embora não se considerem.

Quem luta só contra a impureza nos outros, não consegue admitir sua própria impureza. Por

isso, devemos deixar que Deus no fim do mundo separe o joio do trigo.

Os fanáticos na Igreja sempre causaram devastações. Queimaram as bruxas e com isso

cometeram enormes injustiças. Quem quer a pureza absoluta da Igreja não percebe que está

agindo brutalmente contra os outros.

Por isso, é preciso saber conviver com a realidade de joio e de trigo, de bem e de mal, de erros

e acertos que está misturada em todas as pessoas. Não há nenhum meio espiritual, nenhuma

iluminação que possa nos deixar absolutamente puros, antes da morte. Diante disso, o que

cabe é humildade. Reconhecer que somos luz e trevas, sábios e ignorantes, compreensivos e

intolerantes, misericordiosos e julgadores. É ilusão pensar que podemos chegar à purificação

total nesta terra. Só na morte poderá acontecer a purificação de nossa alma. Por isso, vamos

com calma em julgar. Dizer que a outra Igreja não é verdadeira; que o outro grupo não se

salva; que o outro partido é do demônio; que a outra cor não presta... isso é pensamento fraco

e desconhecimento do que é a realidade humana e a vida.


Padre Ezequiel Dal Pozzo

contato@padreezequiel.com.br