Polícia

A polícia prende e a justiça solta. Será?

Por Keilly Camargo

Os órgãos responsáveis pela segurança pública de Soledade, como Polícia Civil e Brigada Militar, realizam diariamente um trabalho inenarrável pela comunidade soledadense. Contudo, na maioria das vezes os apreendidos não permanecem na prisão. Essa situação gera um grande desconforto para os munícipes.

Conforme a Delegada Regional de Polícia de Soledade, Fabiane de Vargas Bittencourt, a permanência dos meliantes na penitenciária é uma decisão do Poder Judiciário. “Em muitos casos que temos autuado e os indivíduos não ficam presos é mediante medidas tomadas pelo judicial”, afirmou ela.

“Visto que, de acordo com a ideologia jurídica do magistrado que atua nessa situação, normalmente os casos de crimes abrem uma margem jurídica, para poder haver posicionamentos e o nosso tem se manifestado a favor da liberdade dos apreendidos, por uma questão ideológica deles”, declarou a Delegada.

Fabiane falou sobre a motivação dos policiais ao prenderem um indivíduo sabendo que ele pode ser solto e permanecer pouco tempo preso. “Tem sido bem difícil o trabalho dos órgãos responsáveis pela segurança pública no Município. Isso se dá justamente por estarmos refazendo o mesmo trabalho constantemente, por exemplo, prendemos o sujeito em flagrante por tráfico de droga e ele não permanece encarcerado. Já que muitas vezes vamos efetuar, novamente, a prisão do mesmo, pois ele vai permanecer praticando os mesmos tipos de delito”, observou.

“Assim, não conseguimos ver um resultado positivo no nosso trabalho, uma vez que tiramos o meliante de circulação e ele volta para rua novamente. Isso é prejudicial a todos, em razão de que se os indivíduos apreendidos permanecessem encarcerados poderíamos estar trabalhando em cima de outros casos mais graves que acabamos não conseguindo fazer, pois temos que refazer um trabalho já realizado”, argumentou Bittencourt.

Ela assinalou, também, que normalmente mesmo com um histórico grande de antecedentes criminais, os indivíduos estão sendo soltos. “Vemos isso diariamente, principalmente, em casos de tráficos de entorpecentes, em que tivemos que prender diversas vezes o mesmo sujeito. Além disso, manter a motivação dos policiais tem sido nosso maior desafio, pois temos que usar mecanismos criativos, para que eles não desanimem”, ratificou a Delegada Regional.

Bittencourt reforçou que existe um grande descontentamento dos agentes que atuam na rua. “Eles arriscam suas próprias vidas para combater o crime, por isso estamos sempre conversando para não deixar que essa situação abale a moral do nosso efetivo, este é o desafio, fazer com que os policiais continuem trabalhando motivado”, ponderou.

“Respeitamos as esferas de Poder e autoridade pública, mas esperávamos que houvesse um rigor maior por parte do nosso Poder Judiciário na manutenção das prisões e no olhar com relação aos indivíduos autores de crimes, pois essa pessoa está pondo em risco a nossa população de bem. Com isso, espero que se tenha um olhar diferenciado na permanência dos apreendidos, bem como o risco que eles apresentam a sociedade”, salientou Fabiane.

A Delegada reconheceu, ainda, o trabalho desenvolvido pela Polícia Civil e Brigada Militar no Município. “Atuamos incansavelmente todos os dias com um grupo muito comprometido. Com certeza nossa cidade poderia estar em uma situação mais segura e estável se os meliantes estivessem na penitenciária, pois se analisarmos seria um motivador a menos para o restante dos delinquentes, já que se hoje eles se sentem encorajados e motivados a praticar crimes é porque sabem que caso sejam presos, imediatamente, serão liberados”, opinou a gestora.

O Capitão e Comandante da 2ª Companhia da Brigada Militar de Soledade, Cassiano Boscardin, relatou que atualmente o sistema de persecução penal da região está ultrapassado. “Existem muitos métodos para libertar aquele que anda a margem da lei, e é isso que estamos percebendo nas últimas prisões que efetuamos. Os capturados ficam muito pouco tempo detidos, e isso representa que o mundo do crime, por vezes, pode compensar o pensamento de que não vai dar em nada a liberdade do meliante”, exaltou ele.

“Por exemplo, na última semana fizemos uma grande operação, em que 10 indivíduos foram detentos, porém após três dias, oito deles estavam soltos. Nós estamos fazendo nosso trabalho diuturnamente, zelando pela segurança da sociedade, contudo, por muitas vezes, é um trabalho executado em vão”, comentou Boscardin.

Cassiano explicou que o enfrentamento da BM é feito diariamente e os agentes já estão acostumados com esse prende e solta. “Todavia que aqui na nossa região essa situação é mais contundente, pois eles são soltos, ganham liberdade, que no meu entendimento não lhes pertencem, e o nosso efetivo tem que realizar a mesma coisa todos os dias. Atuamos com resiliência, independente do que vai ser feito, visto que a sociedade não pode sofrer com esse idealismo e ficar refém da bandidagem, por isso se for preciso vamos prender o mesmo cidadão quantas vezes for necessário”, constatou o Capitão.

Conforme ele, muitos meliantes fazem do crime uma profissão. “Sabemos que a pessoa que for solta não sairá do mundo do crime, claro que existe ressocialização, porém em pequeno número. Os grandes delinquentes, como por exemplo, os dois indivíduos que ainda estão presos, da operação que encarcerou dez, estão detentos por outra COMARCA, e não pela do Município, pois possuem suas vidas pregressas de muitos crimes”, reforçou.

“Além disso, esse prende e solta é motivo para que outras pessoas entrem para a criminalidade, pois sabem que se forem pegos, serão soltos após um pequeno período. Se analisarmos, há dois anos, não existia e não se percebia a existência de facções criminosas na região. Porém, hoje, através das execuções, estamos percebendo nitidamente que é guerra de quadrilhas, uma delas precisa ganhar território, e assim se forma uma disputa entre ambas. Isso não é bom, uma vez que a polícia não consegue controlar isso sozinha, pois outros poderes devem agir da mesma forma”, opinou o Comandante.

Boscardin salientou, também, que a Brigada Militar e a Polícia Civil estão diariamente justificando o trabalho desenvolvido e sendo questionados sobre as prisões efetuadas. “Se nós enchêssemos a cidade de agentes prenderíamos muito mais criminosos. Mas eles iriam ficar presos? É este questionamento que fizemos e sentimos que a sociedade deve conhecer, pois não somos só nós, é um conjunto de muitos fatores”, completou ele.

“Muitas vezes, aquele delinquente pequeno vê que o traficante grande não está ficando preso, e pensa que, por exemplo, pode roubar uma loja que não ficará muito tempo detento. Portanto, observamos que este prende e solta motiva outros crimes e fatos”, ponderou.

O capitão destacou, ainda, que o efetivo da BM trabalha com a responsabilidade social dos agentes. “Quando incluímos na nossa função, prometemos defender a sociedade mesmo com o risco da própria vida. Fizemos isso todos os dias, e se dependesse da quantidade de presos com a dos que continuam detentos, já teríamos jogado a toalha branca. Mas não é isso que queremos, nós desejamos uma sociedade segura, para isso trabalhamos afinco, buscando a defesa dos cidadãos do bem”, acrescentou Cassiano.

“Ademais, na região em que atua o 38º Batalhão, durante esse ano, efetuamos 185 prisões em flagrante, mas apenas nove pessoas estão encarceradas. De julho até outubro, de 2019, realizamos 18 apreensões por tráfico de drogas, porém somente seis ainda estão. São dados importantes, para que a população veja e continue acreditando na BM, pois estamos trabalhando com afinco e respeito ao cidadão de bem, buscando uma sociedade mais justa para todos”, ratificou ele.

Para finalizar sua fala, Boscardin agradeceu ao efetivo da Brigada Militar pela luta constante contra os indivíduos que andam a margem da sociedade. “Agradecemos, ainda, a parceria com a Polícia Civil, uma vez que graças a este trabalho em conjunto podemos demonstrar para a criminalidade que aqui não é um porto seguro para eles”, pontuou o Capitão.

Na próxima edição, traremos a opinião de um advogado e juiz especialista na área, para melhor elucidar o assunto.