Artigo

Educação e formação humana

Por Informativo Regional

- Regina Portela Gonçalves


Então, qual o significado atribuído a isso, hoje? Quais os mecanismos que possibilitam articular, atualmente, a atividade educativa com uma formação humana integral?

Olhando a evolução sob um ponto de vista histórico, é visto que, nas sociedades primitivas, antes da existência das classes sociais, a formação dos indivíduos era um processo do qual participava diretamente toda a comunidade.

A formação humana é sempre histórica e socialmente datada. Por isso mesmo não é possível definir de forma concreta, em um conceito, ou que ela seja como se fosse um ideal a ser perseguido. Porém, como o processo de tornar-se homem - do homem - não é apenas descontinuidade, mas também continuidade, é possível apreender os traços gerais dessa processualidade, traços esses que, guardarão uma identidade ao longo de todo o percurso da história humana.

O surgimento da sociedade formada entre classes produziu um duplo efeito na história da humanidade. Por um lado, possibilitou um desenvolvimento muito rápido das forças produtivas e da riqueza, mas de outro lado, a divisão excluiu a maioria da população do acesso à riqueza acumulada pela humanidade.

Começa pelo fato evidente de que somente quem tem dinheiro – essa mercadoria das mercadorias – pode ter acesso a esses bens. A medida do dinheiro é também a medida do acesso. Mas, mesmo o pleno acesso aos bens que compõem o patrimônio da humanidade na sociedade capitalista tem, por sua própria natureza, um viés profundamente deformador ao ser humano.

Se pensarmos que a formação moral e ética é uma parte importantíssima desse processo, veremos imediatamente como uma apropriação do indivíduo essa ideia de que, quem tem recursos tem acesso, pois toda formação à qual este individuo está inserido leva-o a aceitar como natural uma forma de sociabilidade que implica que o acesso de uma minoria esteja alicerçado no impedimento do acesso da maioria.

Objetiva, portanto, a formação integral do ser humano, uma impossibilidade absoluta nessa forma de sociabilidade regida pelo capital. Uma formação realmente integral supõe a humanidade constituída sob a forma de uma autêntica comunidade humana, pressupondo, necessariamente, a supressão do capital.

Se definimos a formação humana integral como o acesso, por parte do indivíduo, aos bens, materiais e espirituais, necessários à sua autoconstrução como membro pleno do gênero humano, então formação integral implica na emancipação humana desta dependência ao capital.

É comum dizer que a educação deve formar o homem integralmente, vale dizer, indivíduos capazes de pensar com lógica, de ter autonomia moral; indivíduos que se tornem cidadãos capazes de contribuir para as transformações sociais, culturais, científicas e tecnológicas que garantam a paz, o progresso, uma vida saudável e a preservação do nosso planeta, pessoas criativas, participativas e críticas. Afirma-se que isto seria um processo permanente, um ideal a ser perseguido, de modo especial na escola, mas também fora dela. Como se vê, estabelece então uma dicotomia, a qual: de um lado possui um ideal estabelecido sob a forma de um dever-ser e, de outro lado, uma realidade objetiva que segue caminhos próprios, inteiramente contrários às prescrições desse ideal.

A teoria pedagógica tradicional, que se prolonga com muita expressividade até hoje, pensa que essa contradição entre ser e dever-ser é algo natural, que não pode ser inteiramente eliminada. Por isso mesmo, a busca eterna de melhorias seria o caminho para tentar harmonizar o ideal com a realidade objetiva, pois perceberemos que não nascemos humanos, mas nos tornamos humanos durante as mais diversas etapas da vida.


É neste momento que descobrimos a natureza e a função social da educação. Cabe a ela, aqui conceituada num sentido extremamente amplo, a tarefa de permitir aos indivíduos a apropriação dos conhecimentos, habilidades e valores necessários para se tornarem membros do gênero humano.

Ora, a educação é um poderoso instrumento para a formação dos indivíduos. Mas em sociedades de classes ela é organizada de modo a servir à reprodução dos interesses das classes dominantes.

Considerando que a educação é um poderoso instrumento ideológico de controle do capital sobre a reprodução social, não apenas na escola, mas também fora dela, é preciso ter claro que é de uma luta que se trata e não de uma simples questão técnica. Trata-se de uma luta entre duas perspectivas radicalmente diferentes para a humanidade.

A gestão democrática da educação, na complexidade do mundo atual, implica colocar a educação a serviço de novas finalidades, em todo o amplo espaço público e educacional, e comprometida com a formação de homens e mulheres.

Deste modo, uma atividade educativa que pretenda contribuir para uma formação integral terá que buscar permitir aos indivíduos engajar-se na luta pela construção de uma forma de sociabilidade para além do capital, para formar cidadão e dar independência e autonomia à eles.