Reportagem Especial

A raiz do trabalho como legado

TRABALHO RURAL

Por Informativo Regional

Todos os tipos de trabalho são imprescindíveis para o funcionamento da sociedade. Mas já imaginou conseguir exercer atividades totalmente diferentes paralelamente? Esse é o caso de Andressa Backes Perin, que todos os dias atua nas funções de mãe, dona de casa, professora e trabalhadora rural.

Filha única de agricultores e moradora da comunidade de Santa Terezinha, interior de Soledade, Andressa esteve ligada às atividades rurais desde muito cedo, onde nasceu e se criou. Mesmo após conhecer o marido Leandro, ter concluído o ensino médio e a faculdade, ela permaneceu residindo e trabalhando no interior, local em que sempre teve muito amor.

Assim que completou 18 anos, tirou a habilitação, onde conseguiu conciliar as idas para a universidade. Antes mesmo da conclusão do curso de Letras, foi chamada para assumir o cargo de professora na Escola Saldanha Marinho em Ibirapuitã, onde até os dias de hoje ainda atua. Logo, foi contratada pelo Instituto Estadual de Educação Maurício Cardoso, e ao total, cumpre 40h de carga horária entre ambos educandários.

Mas embora esteja trabalhando como educadora, Andressa ainda possui a responsabilidade de cuidar da casa, do filho e ajudar o marido nas atividades rurais. Com o auxílio de sua mãe e da sogra, ela concilia o cuidado com o filho Augusto, as atividades escolares, domésticas e na agricultura, especialmente na colheita de soja.

“Devido à pouca quantidade de pessoas para ajudar na escoação da safra, fiquei encarregada de levar o caminhão com a produção até o silo da Coagrisol. Quando renovei minha habilitação, há cinco anos atrás, poderia ter tirado a de caminhão, mas ainda não me sentia preparada. Aos poucos, fui pegando o jeito e as manhas de conduzi-lo carregado. No final de 2020, precisaria novamente renovar e tomei coragem, fazendo a troca de categoria e passando de AB para AD. Com isso, nesta colheita, dirigi o caminhão sozinha pela primeira vez. Dizem que caminhão vicia, e eu gostei bastante da adrenalina”, conta Andressa.

No trabalho de professora, devido as aulas estarem ocorrendo no sistema remoto, ela tem tido facilidade em programar conteúdos, sempre conciliando as atividades de sua responsabilidade. “Em certos dias, acordava às 05h para deixar tudo pronto. De manhã, como a lavoura ainda não estava enxuta, aproveitava para coordenar minhas aulas e, a partir das 11h, trocava de profissão, auxiliando o trabalho na lavoura”, aduz.

Emocionada ao falar sobre sua rotina, Andressa afirma que sempre deixou claro para seus alunos que tinha dialeto rural. “Desde quando estudava, eu já notava que os alunos do interior eram mais massacrados em relação aos da cidade e, muitas vezes, não tinham conhecimento sobre a área rural. Por isso, desde o primeiro dia que comecei a dar aula, expliquei onde moro e as profissões que tinha. Muitos de meus alunos têm curiosidade e, inclusive, já trouxe algumas turmas para conhecer a realidade de onde vivo”.

Com 28 anos de idade, ela sente-se realizada em conciliar todas as atividades paralelamente. “Espero que eu continue me organizando para seguir desempenhando minhas responsabilidades. Me sinto satisfeita, pois amo dar aula e amo meus alunos, inclusive, sinto muita falta das aulas presenciais. Da mesma forma, amo trabalhar na roça, principalmente na parte dos maquinários, dirigindo trator e caminhão”, cita a agricultora.

Além de tudo isso, Andressa preza pelo cuidado e capricho com o paisagismo da propriedade em que residem, com decoração autodidata pelo casal. “Nosso jardim está em construção ainda, pois o Leandro teve a ideia e estamos arrumando aos poucos”, afirma.

Para ela, estar inserida no mercado de trabalho e exercer funções que eram exclusivamente executadas por homens, é uma forma de mostrar a capacidade que as mulheres possuem de conciliar todas as suas atribuições e atuarem em profissões diferentes. “É notável o estranhamento por parte de algumas pessoas ao me verem dirigindo e trabalhando na lavoura, mas eu dirijo há seis anos, ou seja, já tenho uma boa experiência. Como mãe, confesso que as vezes a gente pode pecar, porque o Augusto tem as atividades escolares para fazer, tanto que na safra tive que avisar a professora que íamos atrasar alguns trabalhos, visto que também sempre tento trazê-lo para o lado da agricultura”, ressalta.

Por fim, Andressa pontua que não é fácil moldar o pensamento da sociedade de que as mulheres tem competência para exercer todas as funções que gostam. “O importante é não ter medo, e isso eu aprendi com meu marido, pois não podemos evitar que as coisas aconteçam. Se imaginarmos que somos capazes de fazer algo, é porque realmente somos. Portanto, digo que, principalmente as mulheres mais jovens, procurem fazer o que gostam, porque eu sempre gostei de estudar e me dedicar, por isso, acredito que estou fazendo um bom papel como professora, mãe e trabalhadora rural. Conseguindo compensar e complementar o serviço do meu marido, trabalhando junto, pois sozinha com certeza não conseguiria executar todo serviço”, finaliza. 


Fotos: Arquivo Pessoal