Rural

Elas fazem acontecer no agro e na internet

Conheça algumas das mulheres que compõem “O Agro Por Elas”, um grupo virtual de trocas de experiências e compartilhamentos do dia a dia das agricultoras no campo

Por Keilly Camargo

Capacidade de planejamento e gestão, atenção nos detalhes, cuidado e amor pelo ofício: características fundamentais para o sucesso do agronegócio que as mulheres desempenham como ninguém.

Sendo protagonistas no campo, trabalhadoras rurais vislumbraram na internet uma forma de aproximação regional e troca de experiências em diferentes cidades de todo o Brasil. Através de grupos virtuais, elas mostram sua rotina diária e o empoderamento feminino, com o intuito de enaltecer a importância de as agricultoras que, mesmo vivendo no campo, não deixam de lado a vaidade que toda mulher possui.

Vinculadas por meio do grupo “O Agro Por Elas” que possui mais de mil agricultoras ao todo, elas encontraram uma forma de registrar a rotina do agro. Fotos, mensagens e vivências são compartilhadas, a fim de reforçar a força da mulher onde quer que estejam, independente do que pretendam desempenhar. Juntas, elas se unem para fazer mais, e dessa forma acabam por fortalecer vínculos e derrubar padrões até então assegurados fortemente pelos homens.

Como tudo começou

Quem teve a ideia de criar o grupo foi Olívia Bergmann Joanela, agricultora do município de Ibirapuitã, após passar por uma situação em que foi questionada se realmente atuava na agricultura. “Em 2011, quando fui receber meu salário-maternidade, o perito questionou minha aparência de agricultura, dizendo que eu não tinha cara de quem trabalhava no campo, sendo que atuo na roça a minha vida toda. Essa situação me deixou indignada, porque não é a aparência que define um agricultor, e as mulheres podem estar bem arrumadas mesmo trabalhando e morando no campo”, afirmou ela.

Depois do ocorrido, Olívia passou a pesquisar e integrar grupos e páginas que tem como viés valorizar o trabalho da mulher agricultora. “Com isso, percebi que na nossa região não tinha nenhum grupo neste sentido, e como já tínhamos um grupo virtual onde colocávamos coisas para vender, eu sugeri um novo visual a ele, a fim de valorizar a mulher do campo e interagir de forma diferente, para compartilhar a nossa rotina, e todas aceitaram. Fizemos uma lista de nomes e escolhemos O Agro Por Elas, porque nosso intuito é mostrar o agro da nossa forma, de como exercemos ele no campo”, relata Olívia.

Ela pontua que mesmo trabalhando e vivendo no campo, as mulheres podem e devem se arrumar, ir ao salão e se cuidar. “Isso não significa que vamos deixar de fazer nosso trabalho bem feito. E é justamente isso que buscamos enfatizar no grupo, mostrando nossa rotina, nossas atividades dentro e fora da agricultura. Cada uma mostra a sua paixão, compartilhando conhecimento sobre sua cultura e atividade, pois muitas não são apenas agricultoras, mas exercem outras funções também”, salienta.

Olívia, junto com seu marido, administra a propriedade e é responsável pelas vacas e pela compra dos produtos para produção do leite, além de tratar sobre diversos outros assuntos. “O lugar da mulher é onde ela quiser, e o fato de sermos uma não significa que não sabemos dirigir um trator, que não podemos colher ou plantar, pois atualmente tem mulher fazendo todo o tipo de atividade e fazendo um serviço bem feito. Sabemos que somos cobradas, porque é um mundo mais machista, mas estamos mostrando nosso lugar e nossa competência”, considerou.

Andressa Backes Perin, uma das administradoras do grupo “O Agro Por Elas”, destaca que mesmo tendo nascido e crescido no interior, as pessoas da cidade estranham ao se deparar com mulheres de unhas e sobrancelhas feitas, cabelos com luzes ou alisamento. “Um passado não distante das mulheres da agricultura por motivos de que não davam ênfase a vaidade, onde a própria velhice e sofrimento aflorava nos rostos. Hoje existe vários meios e cuidados, que nada atrapalham a lida do dia a dia com os animais ou até mesmo no vai e vem da terra”, disse.

Andressa, que também é professora, salienta que alguns alunos não conhecem como funciona um interior. “Por exemplo já me perguntaram as vestimentas de trabalho, pensam que por estar mais arrumada na sala de aula, algumas vezes com salto ou maquiagem, que em casa, no galpão ou lavoura, possuímos o mesmo ritmo. Mas não, eu possuo a mesma identidade, personalidade e simplicidade, porém adequados ao ambiente atual, mais formal, ou mais rural, e nada me muda, continuo sendo a mesma Andressa”, garantiu.

“As pessoas deveriam olhar o povo do interior com alegria, entusiasmo e gratidão. Mas muitas vezes somos vistos com vergonha, por maldades e algumas vezes destruidor, que é uma visão egoísta de quem nunca soube o que é uma rotina do plantar cuidar e colher. Sobre nós mulheres, a ideia nunca foi e nem será a de substituir o homem, e sim mostrar que ao lado deles, existe um sexo oposto que com o apoio deles mesmos, nossos maridos, é que somos capazes de comandar muito bem nossas estruturas e lidas juntos, com sonhos e projetos ao futuro promissor e mesmo que em passos lentos, recompensados”, afirmou.

Dia a dia compartilhado

Para Gislaine Schuster, 28 anos, que também é do município de Ibirapuitã, o grupo é uma forma de trocar experiências e conhecer o dia a dia de outras agricultoras. “Além disso, ele também é útil para que as mulheres se engajem e mostrem cada dia mais o seu empoderamento no campo, deixando a vergonha de lado e mostrando todo o seu potencial, pois juntas podemos mostrar que o lugar de mulher é onde ela quiser”, afirma.

Gislaine ingressou e iniciou a atuar no campo há aproximadamente oito anos, quando se relacionou com um agricultor. “Eu morava e trabalhava na cidade. Nisso, comecei a namorar um rapaz do campo e tempos depois decidimos morar juntos no interior, onde aprendi a tirar leite, dirigir trator e caminhão, colher grãos na lavoura, entre outras várias coisas. Sempre estou com ele nas lavouras, ajudando e aprendendo novas tarefas diariamente, onde quero permanecer por muitos anos, se Deus quiser”, garantiu.

Para ela, é gratificante trabalhar no campo, ser chefe de si mesma e poder desfrutar da sensação de liberdade. “Na minha opinião, atualmente é muito comum ver mulheres trabalhando no campo, dirigindo um caminhão, colhendo ou tomando frente da propriedade. Sabemos que ainda há alguns preconceitos, mas aos poucos vamos rompendo barreiras e ocupando nosso espaço onde quisermos.  Tudo tem o seu tempo e as coisas sempre mudam, e é dessa forma que as pessoas veem a importância que tem a mulher no campo”, salientou Gislaine.

Outra integrante do grupo é Mônica Ávila, 36 anos, agricultora do município de Nicolau Vergueiro. Filha de pequenos agricultores, ela se criou no meio rural e desde pequena sempre adorou a vida no campo.

“Meus pais sempre me incentivaram a estudar e ter outra profissão. Até pensei nisso, mas não me via trabalhando fora, porque sempre gostei de ajudar nas tarefas do campo, de ordenhar as vacas, recolher o pasto, tratar os bezerros e ajudar no plantio de soja e milho. Por isso, tomei a decisão de seguir no campo quando terminei os estudos, pois já estava na hora de ter um objetivo de vida, e eu optei por ficar junto com meus pais e ajudá-los na agricultura”, conta.

Depois de cinco anos desta decisão, Mônica decidiu morar com seu esposo que também é agricultor. “Montamos nossa estrebaria com nossas vacas e eu continuei na agricultura. Para mim, atuar no campo é muito gratificante, porque podemos colocar nossas ideias, tomar as próprias decisões e participar dos negócios e afazeres do campo”, relata a agricultora.

Essa rotina toda, Mônica compartilha com as colegas do grupo “O Agro Por Elas”. “O nosso grupo busca incentivar as mulheres do campo a expor suas atividades diárias e profissão, além de trocar ideias e experiências sobre os afazeres da nossa rotina. Todos os dias postamos fotos do que fizemos, mesmo que tenha dado certo ou errado. É uma forma de estar unidas, mesmo que de longe”, explana ela.

Moradora da localidade de Pontão da Boa União, interior de Soledade, a agricultora e produtora de leite, Vitória de Lima Pancotte, 21 anos, também faz parte do time de mulheres do grupo “Agro Por Elas”.

Apesar da pouca idade, Vitória tem uma extensa trajetória na agricultura, pois nasceu e se criou no interior, acompanhando os trabalhos desenvolvidos pelos pais, o que contribui exorbitantemente para que sua atenção se voltasse para o campo também. “Meus pais trabalharam por 10 anos como fumicultores, e eu sempre estive presente, ajudando no que podia, andando de carroça, cuidando dos animais e ajudando a tirar leite. Ou seja, desde pequena sempre tive contato direto com os animais e a lavoura. Depois de um tempo, eles decidiram parar com o fumo e iniciaram a trabalhar com leite, foi nisso que nasceu minha paixão pelas vacas leiteiras, onde ajudava meus pais em um turno e estudava no outro. Foi assim que percebi que esse meio era o que eu queria para minha vida e como profissão”, conta.

Ao lado do marido, que também é agricultor, Vitória sente realizada em sua vida pessoal e profissional. “Sou apaixonada pelo que faço, trabalho com muito amor e dedicação, sempre procurando melhorar.

Antes de ingressar no “O Agro Por Elas”, Vitória já acompanhava outros grupos de agricultoras, mas não fazia parte de nenhum da região. “Fiquei muito feliz em ter sido convidada, porque na nossa região não tinha nenhum grupo de motivação, com pessoas conhecidas. Ao entrar nele, percebi a força de cada mulher agricultora, pois trocamos experiências, rotina, receitas, dicas, conversamos, e damos força uma para a outra. Um grupo de mulheres assim nos fortalece cada vez mais, porque quando nos unimos tudo fica mais fácil e se torna mais bonito. Nosso propósito é incentivar as mulheres a não ter vergonha de sua profissão e de se cuidarem, porque a mulher do campo também deve se ir ao salão se arrumar, e principalmente empoderar as mulheres, mostrando que somos independentes, e que nada disso influencia no trabalho do campo”, destacou a agricultora.

Para ela, atuar no campo não é uma tarefa fácil, ainda mais sendo mulher. “Ainda presenciamos uma cultura machista, de pensamentos que se voltam a incapacidade de uma mulher dirigir caminhão e trator, trabalhar na lavoura ou com vacas, além de tantas outras situações. Mas acredito que cada pessoas tem que fazer o que gosta, com disposição e amor. E é isso que buscamos refletir no nosso grupo, que somos mulheres fortes e guerreiras, capazes de fazer a diferença”, pontuou Vitória.